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Domingo, 29 de Outubro de 2006

O Ferry e Eu - Margarida Rebelo Pinto

Acredito que a verdade reside muito mais vezes no silêncio do que nas palavras, por mais belas e justas que sejam, mesmo quando voam do coração dos poetas para o coração do papel e ficam ali a dormir, à espera que alguém as apanhe.
Sou de poucas conversas e prefiro falar do mundo com ironia do que dissertar sobre o que me forra a alma, porque quem me conhece consegue ler nela tudo o que precisa e além disso, sem palavras nunca há equívocos. Tenho mãos e olhos e tempo para aqueles que amo e quando se ama alguém é como se nos nascesse um néon na testa, maior e mais brilhante do que o do "Bellagio" em Las Vegas, uma luz serena, quase divina, que nenhum curto-circuito consegue apagar.
My love is wider, wider than Victoria Lake, my love is taller, taller that the Empire State. A musa que canta por mim enquanto guias silenciosamente a caminho do sul. Esperam-nos praias na falésia, vodcas tónicos ao cair da tarde, noites claras e manhãs preguiçosas, a tua pele encostada à minha, a respiração profunda e regular do teu corpo adormecido e o cheiro salgado da tua pele quando te estenderes ao meu lado na areia, longe do mundo, perto de mim. Tens uma docilidade igual à minha, genética, quase inconsciente, que te corre no sangue e que tentas esconder de ti própria. Às vezes consegues, és como eu, sabes disfarçar a dor, a tristeza, a solidão, a ausência, o medo e o desencanto e quando não consegues, vais-te embora e lambes as feridas em segredo até estares curada.
O amor ao silêncio vem-me da infância, quando brincava anos a fio com o Ferry, um dos seres mais notáveis e superiores que conheci. Era um pastor alemão de olhar vivo e bom porte que corria como um leão e brincava comigo com uma criança. Sabia sempre qual era o seu lugar e usava o seu charme canino para conquistar os humanos com grande talento e muita discrição. O Ferry era o meu cão, o meu irmão mais novo, o meu melhor companheiro e mais fiel amigo. E nunca precisámos de conversar. Às vezes, muito poucas, eu dizia-lhe duas ou três coisas que me preocupavam e ele respondia-me com um olhar ou um suspiro e eu percebia o que ele me queria dizer; que o mundo poder ser um lugar difícil, mas, se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós. E que o importante é não complicar, ter tempo para descansar e brincar, seja qual for a nossa idade ou profissão. O Ferry ensinou-me a amar o silêncio e a respeitar o silêncio dos outros. Mas também me ensinou a atacar de forma letal os meus inimigos, a ser grato a quem me quer bem e a lamber as feridas longe dos outros. Morreu envenenado e deixou um vazio na minha vida.
Nunca esquecemos aqueles que amamos, nunca deixamos de amar aqueles que nos amaram, nunca perdemos a sabedoria que nos legaram, nunca deixamos de ter saudades daqueles que mudaram a nossa vida. E é por isso que quando escondes a cabeça abaixo do meu ombro direito e dizes em voz muito baixa temperada com riso e embaraço que se calhar te estás a apaixonar por mim, fico calado para que me oiças melhor e penso que sou uma pessoa cheia de sorte. O Ferry tinha razão; a vida nem sempre é fácil e o mundo pode ser um lugar vil e torpe onde há homens que têm prazer em mutilar crianças e envenenar cães, mas se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós. E tu já fazes parte da minha vida.

(Acho a Margarida Rebelo Pinto uma excelente escritora, por isso não haveria melhor forma de dar ínicio a este blog. As frases que sublinhei são as que mais me marcaram em todo o texto. A primeira porque acho que me poderia definir através dela, a segunda porque de facto todas as pessoas especiais que atravessam o nosso caminho ao longo da vida, mesmo que por um curto período de tempo, deixam marcas profundas que nem o tempo consegue apagar; a terceira porque caracteriza a justiça que a vida exerce sobre nós, tudo o que fazemos aos outros regressa para nós em dobro.)

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